segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

nos espaços vazios sou teu corpo de silêncio e vidro sou o teu sopro neblina resina fantasma por sobre manhãs e horas densas do fim de um dia
sou um corpo inexistente de veludo e lúdico parente das violetas e outras espécies mudas que insistem numa esquina e são apenas
a convergência de olhos em forma de folhas o encontro de abelhas e flores a visão e as cores de onde se gera os corpos de silêncio e vidro inexistentes e habitantes desses espaços vazios tão pedestres como o movimento e
o tempo de flores abelhas e flores...


Rio, 14 de janeiro de 2011

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antônio bizerra

sábado, 10 de dezembro de 2016


e no escuro imagino que há um espelho onde se reflete meu rosto escuro e me assusto com o que não vejo. me assusto com esse rosto convincente cuja imagem desobediente ao olho cego se forma em minha cabeça. e inclusive não gósto dessa cabeça no escuro essa cabeça que se vê de dentro de si mesma e do espelho escuro. e ainda me atrevo a olhar para os lados embora no escuro os lados possam ser a frente e a frente as costas daquilo que não vê e nem se tem. se eu já fosse cego de nascença e minha visão fosse o tato então tudo se teria. mas assim não sendo cego de nascença nem de momento algum nada se tem mergulhado nesse espaço cego porque não o vejo


Rio, 24 de janeiro de 2013

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antônio bizerra

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

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Eu não tenho religião definida e assim eu sou acolhido por todas. Portanto, em qualquer lugar do mundo em que eu estiver, serei sempre bem recebido. Deus e deuses, toda a dança da diversidade glorifica a Deus. Todas as forças, uma força única.
No múltiplo, o Uno. No Uno, a diversidade.

Todo aproximar-se do Divino, com o coração puro e a intenção clara, é válido. Todo aproximar-se do Divino, na  simplicidade dos sentimentos, é sagrado, naturalmente sagrado.



(17 de novembro de 2016)


antônio bizerra

A beleza da Arte é o poder de fazer-nos enxergar, principalmente o que não é belo na vida...
A beleza está no enxergar e fazer enxergar...
Enxergar de verdade é con-doer-se.
E, afetados, passamos a ser um pouco um corpo de mudanças.



(7 de novembro de 2016)

antônio bizerra

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Chega o silêncio como a mais sincera fala do espírito, o silêncio doce, denso, o silêncio e todas as palavras que não poderiam ser encontradas. O silêncio é um tempo absoluto, um tempo no qual tudo para, mesmo que não deixe de fluir em volta um tempo outro, alheio, ininterrupto, tempo que nos leva de nós mesmos e somente no silêncio podemos voltar para dentro de nós mesmos. Silêncio, essa música que nem se ouve mas que o coração escuta.

Fora do silêncio estamos longe de nós mesmos.


(9 de março de 2016)

antônio bizerra


domingo, 11 de janeiro de 2015

Meditar _2



Não, os pensamentos não param. São assim mesmo, um fluxo infindável, um rio interior, perene. Às vezes, chegam a formar uma torrente, que vai levando um monte de coisas dentro de nós, casas, telhados, pessoas, bichos, deixando um sentimento de que não se há mais abrigo. Sim, sem mais abrigo dentro de nós mesmos.

E da mesma forma esse fluxo de pensamentos corre enquanto meditamos. Ininterrupto, sua mera natureza. Mas, mantemos os olhos fechados enquanto respiramos. É realmente só isso: manter os olhos fechados enquanto respiramos, atentando-se tão-somente à respiração, imaginando o ar descendo até o baixo-ventre, enquanto inspiramos, usando a musculatura desta região para esse intento; depois, exalamos, pressionando a mesma musculatura, abaixo do umbigo... tudo, porém, sem forçar. Porque os pensamentos nos desviam a todo momento de nossa concentração. Portanto, não devemos lutar contra esse fluxo, mas apenas observar, observar a nós mesmos, captar cada pensamento, acompanhá-lo um pouco em seu curso, e, depois, outro, e depois outro, e outro, e outro... assim, conforme a mente se movimenta, abraçando sucessivamente os pensamentos, indo de um a outro, sem nunca parar, nesta inquietação infinita, sua natureza.

Assim, quando não nos forçamos a manter a concentração, mas apenas nos exercitamos a procurar mantê-la, aí sim temos o momento da meditação. Com a prática, conseguimos nos concentrar mais e mais na respiração somente, com seus descansos naturais de se encher o peito, e depois voltar ao baixo-ventre de novo...

Em épocas quando eu estive muito triste, triste por me sentir desencontrado, por não saber mais, naqueles momentos, o que realmente cabia a mim fazer neste mundo, o que realmente eu deveria exercer para que se formasse algum sentido nesta vida, eu meditava e simplesmente quase não conseguia manter os olhos fechados. As pálpebras tremiam tanto que eu abria os olhos a todo tempo, e percebia que eles não queriam mesmo era  olhar para dentro. Porque quando fechamos os olhos, começamos a enxergar dentro de nós, e, quando enxergamos dentro de nós, percebemos o quanto ficou de desolação após vivermos momentos tão difíceis.

A prática do meditar é nada mais do que um exercício de concentração, que pode nos proporcionar serenidade e atenção calma. E, como toda prática, ela vai se aprimorando com o tempo. Meditar é essa coisa mesmo de procurar ver dentro, e, na verdade, não se faz necessário qualquer formalismo além de se fechar os olhos e atentar-se à respiração e, de preferência, que se imagine que o ar segue para o baixo-ventre quando se inspira, e se exala naturalmente, levando assim, quando menos percebemos, uma porção de pensamentos, e a mente vai se acalmando, e o corpo vai se acalmando, e o espírito...

Meditemos. Seja no metrô, dentro do ônibus, numa sala de espera... seja mesmo numa aula de yoga, ou numa aula de natação, ou durante uma caminhada... Meditemos, sem maiores detalhes.



Rio, 31 de dezembro de 2014


antônio bizerra

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Meditar _1



Temos que entrar em comunhão com a gente mesmo, perceber aquilo que nos cabe fazer aqui nesse mundo, em meio a isso tudo, esse caos, essa loucura. Temos que parar às vezes, parar mesmo e meditar. Às vezes me perguntam como é que se medita, e eu respondo que basta fechar os olhos e prestar atenção na respiração. Aliás, em quantas coisas não prestamos atenção... porque, também, não se pode naturalmente estar a par de tudo, de tudo pelo menos que se passa com a gente, especialmente tudo que se passa dentro. Principalmente o que se passa dentro, se já é tão difícil perceber o que se passa fora, no corpo e ao redor...

Então, o meditar. Muitas vezes, quando estou no metrô, eu medito. Escolho um canto, em pé mesmo, fecho os olhos e me atento à respiração. E não há nada de complicado, ou nada de esotérico ou misterioso nisso. Basta apenas prestar atenção na respiração. Porque quando fechamos os olhos para meditar, enxergamos, enxergamos com tamanha nitidez o que se passa no pensamento. Uma agitação tamanha vem à tona, vem à consciência. Essa agitação é ressonância do que se passa em volta de nós. Sim, somos antenas para tudo, conectados com tudo, seja lá o que for esse tudo. E nosso espírito vibra conforme o ambiente em torno de nós, e, conforme seja conturbado e perturbador, assim vibrará nosso espírito, conturbado, perturbado, e o corpo, por sua vez, entrará em ressonância com o espírito e...

Então, fechemos os olhos um pouco. Isso não é fechar os olhos para a realidade, aliás, seja lá qual ela for, seja lá qual seja, realidade, essa coisa que se nos chega através de palavras, e imagens, e palavras sobre as imagens, colorindo as imagens com sentimentos e interesses que convêm a quem está narrando os fatos.

Meditemos.

E, ao mesmo tempo que prestamos atenção à nossa respiração, podemos prestar atenção um pouco ao nosso espírito: o que fazemos realmente?, o que queremos?, o que se vale à pena?, para nós, para outro, para outros, para o mundo... Meditemos, nem que seja por alguns segundos, nem um minuto completo, segundos, nem que seja um respirar fundo, mais um respirar fundo que realmente encha os pulmôes, que encha o peito, e oxigene não apenas nosso corpo. Meditemos... Eu diria até que o modo certo -- bem, há um modo certo, sim, é verdade -- de se meditar: devemos respirar com o abdômen, abaixo do umbigo, como se o ar estivesse enchendo um espaço abaixo desse, o espaço do baixo-ventre. Mas, nada de se forçar isso, pois isso é, em princípio, um exercício de pensamento, e, pensamento, é a centelha inicial de uma realidade que vai tomar lugar nesse mundo.
Mundo... qual nosso lugar que devemos tomar, neste?

Meditemos.


Rio, 30 de dezembro de 2014.

antônio bizerra

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Desafio...


Eis o desafio, um desafio contra si mesmo -- em prol de si mesmo: escrever algo, sentar-se a uma mesa, abrir um bloco ou um caderno e escrever, sair escrevendo, preenchendo o espaço em branco, relatando tudo isso que está dentro de si, desbravando o deserto de uma página em branco. Então, o desafio: escrever algo.

Como sou poeta, e escritor, possuo artimanhas para tão simples, embora muitas vezes difícil, ato de escrever. Artimanhas. Eu as desenvolvi ao longo de minha vida de poeta e escritor. Ou melhor, eu as deixei que se desenvolvessem em mim, que encontrassem terreno fértil em minha alma, e que, assim, florescessem em galhos e ramos e folhas incontáveis inúmeras, e sempre morrendo e se renovando. Deixei-as, e assim fui me compondo.

Mas, voltando-se ao algo, isso que deve ser escrito, isso que deve riscar o espaço deserto da página em branco e deixá-la agora como uma floresta exuberante, cheia de árvores e plantas que impõem uma nova ordem ao vento que soprava livremente por sobre esse deserto e que agora deverá obedecer a essas inúmeras árvores e plantas nesta nova dinâmica pontuada do espaço, agora ordenado em vias e desvios, em sendas e vertentes, e até por entre a rede fina de uma teia de aranha, ou por entre a trama viva de galhos e ramos e folhas.

Bem, com estas palavras, termino com o cumprimento deste desafio, deixando esta página toda preenchida e lançando ao leitor o mesmo desafio. Sim, eu possuo as artimanhas, que é de meu ofício. Mas, antes de eu estar incumbido deste ofício, eu também não era poeta, nem escritor, mas, escrevia, e, aceitava o desafio.

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05 de setembro de 2014

antônio bizerra

quarta-feira, 22 de outubro de 2014


esse instrumento, e meio -- palavra --, me procura pq eu a procuro,
e me encontra pq eu a encontro e tudo isso faz encontrar.
escrever exige de todo ser, de todo o ser, de todo-ser para a escrita.
os amigos diletos sentem falta de mim na Música,
mas não sabem o quanto a Poesia exige,
e não digo isso para me esnobar de que exerço um ofício difícil, mas, de fato o exerço.
e, ainda mais me ausento nestes momentos quando surgem outros compromissos e, assim, sou por completo arrebatado da presença destes amigos necessários a meu bem viver.

uma das coisas q as pessoas não sabem sobre os filhos únicos:
eles lutam contra a investida intensa e ininterrupta dos pensamentos,
pois não havia a presença de alguém de sua faixa de idade, na infância, que o tirasse de dentro de si e o chamasse para a porrada e o aborrecimento,
e o retirasse do Silêncio para viver mais como vivente do que como pensador

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texto via whatsapp para uma amiga tão querida e sempre presente.


13 de outubro de 2014

antônio bizerra

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Vocação


Olhou-se no espelho e, em pleno delírio devido ao calor atual, viu que sua gravata se transformava em serpente, e, num bote rápido por se sentir em perigo entre o homem e seu reflexo, morde o reflexo no rosto e o advogado tomba, envenenado. Mas, no dia seguinte, acorda em um barco, a milhas distantes daqui.


10 de fevereiro de 2014.

antônio bizerra